Uma pequena e brava estátua

valente copy

Uma rápida crônica sobre uma peça, aquela mais importante da prateleira

Eu não me recordo exatamente quando foi que comecei a colecionar, não consigo conectar o início dessa paixão com uma fase específica da vida. Na real eu nunca fui muito bom com datas – ou talvez seja a idade mesmo. Começou com alguns bonecos simples divididos na estante com livros e quando vi estava atrás de peças específicas e salgadas edições de colecionador. Mas se tem algo que recordo bem foi o colecionável que conquistou meu coração e até tem até hoje lugar de destaque na prateleira da vida. Não, não é um Hot Toys, Sideshow ou ThreeA, é algo mais valente.

Bem, como todo nerd que se preze, chega um ponto em que não bastava simplesmente ter colecionáveis, eles precisavam ter significado. Em 2013 um projeto muito bacana dos quadrinhos nacionais decolou para o infinito e além. O selo MSP Graphics começou com o excelente Astronauta: Magnetar, mas a obra Turma da Mônica: Laços foi responsável por sequestrar nossas almas. A homenagem/releitura perfeita em tudo chamou a atenção para dois irmãos mineiros responsáveis pela HQ, Vitor e Lu Cafaggi. O meu próximo passo foi ir atrás do que eles fizeram e então conheci um pequeno cão que considero pacas e se tornou um favorito quase que de forma instantânea.

'Olha o bicho vindo, muleque'

‘Olha o bicho vindo, muleque’

O traçado foi a primeira coisa que me chamou a atenção nas tirinhas de Valente, atualmente publicadas pela Panini, mas que já fora semanal no jornal O Globo. Lidar com animais torna a questão da fisionomia bem mais difícil, afinal são variadas silhuetas e formas para tomar vida no papel, e em Valente essas formas são muito simpáticas. Além disso, todos os personagens são muito legais (exceto a Dama, que não tem coração) e como a história tem camadas ela agrada e diverte tanto crianças quanto adultos, o que considero o maior trunfo. Para resumir, não descansei até ler e colocar tudo do Valente com os demais livros.

No começo de 2014, ainda no seu perfil pessoal no Facebook e no Punny Parker, Cafaggi postou sobre uma estátua do Valente e que interessados deveriam mandar um email para a fila. Seriam apenas duzentas peças numeradas e autografadas, então assim que terminei de ler fui correndo cumprir o dever e tentar reservar o me, de qualquer jeito. Eu precisava dessa estátua e não era apenas ter, mas pelo seu significado. Eu me sinto um amigo íntimo do Valente, torci pelas suas investidas com a Dama e a Princesa, compartilho parte de suas angústias com a vida e também me vi nas mesmas situações das tirinhas. Ri e me emocionei com ele, e ainda o faço ao reler com certa regularidade enquanto a quinta HQ não chega.

Essa data eu lembro mais ou menos, com a ajuda do Instagram: em maio de 2014 finalmente chegou aquele pacote embalado com todo carinho. Eu já tinha visto as fotos, mas a caixa do Valente é uma obra a parte com a silhueta recortada e detalhes em relevo. Referências como o dado de RPG fizeram com que um sorriso pulasse na cara. Na verdade ele poderia ficar exposto dentro da caixa, de tão bacana que ela é, só não faço isso porque o lance do lugar especial na prateleira foi literal.

Foto tirada logo depois da entrega, pense em alguém feliz

Foto tirada logo depois da entrega, pense em alguém feliz

Sobre a estátua, o aspecto técnico mais impressionante é a expressão do Valente. Pode ficar um pouco difícil para quem não conhece ou não leu as tiras, apesar da cara de susto e espanto ser bem caracterizada.  Em escala 1/6, o trabalho primoroso do Eddie Vieira (clique aqui para ler sua entrevista) fica bem evidente na expressão facial, na fuça do cão. Os olhos assustados, desconfiados, provavelmente pensando se aquela gata do ônibus realmente deu bola para ele. Essa expressão é um reflexo direto da personalidade, esse tom é uma característica onipresente do personagem desde os primeiros quadrinhos.

Outro detalhe que percebi depois de certo tempo é uma pequena rachadura na base, no chão da estátua. Claro que isso não me incomodou nem um pouco, mas comparando com as fotos de outras pessoas vi que suas peças também tinham a rachadura. Eu estou bem longe de ser qualquer coisa relacionado com figuras de ação, diferente de especialistas como Alexandre e o Márcio por exemplo, mas o mais plausível é que tenha sido uma pequena falha no molde utilizado para a base. Por outro lado, acredito que até isso contribui com a identidade da peça, tira aquele ar hermético e padronizado de lote de fábrica. É como uma marca, uma cicatriz que por trás pode esconder uma boa história.

Consegui pegar o Valente II há algumas semanas, em um segundo lote se não me engano, pois não pude adquiri-lo no lançamento. Com uma referência direta ao Rocky, de quem o personagem (e a gente também) é muito fã, na pose ele desce alguns degraus com o clássico moletom cinza. Quem foi na Comic-Con Experience 2015, e recentemente em um evento da Casa dos Quadrinhos (MG), pode conferir a terceira estátua que vem com uma cartola destacável. Aliás, tudo aponta para que o Valente III seja disponibilizado para o público geral em breve.

Minha vontade é que venham muitos Valentes, de todos os tipos, cores e expressões. Seria um prazer ter uma estante inteiro só com o pequeno cão ou com outros personagens da tirinha. Mas confesso que é muito difícil que algum deles supere o valor emocional dessa estátua, vou mais longe até: independente da escala e valor das outras peças que eu venha a adquirir, nenhuma delas chegará perto da grandeza desse pequeno Valente.

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Marcus

Viciado em games desde os tempos do Atari, não faz muito que se encantou com o mundo dos colecionáveis. Jornalista pós-graduado, trabalha com infografia e mídias digitais no Núcleo Experimental de Jornalismo da UPF.

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